domingo, 2 de agosto de 2015

OITO PERGUNTAS A PENAS com BIANCA VELLOSO


Bianca Velloso nasceu gaúcha, na capital do Rio Grande do Sul, em novembro de 1979. Filha de uma médica ginecologista e de um técnico em óptica. Ainda criança foi morar na Ilha de Santa Catarina e cresceu poeta. Em 2001 formou-se em Pedagogia. Como todo poeta, é apaixonada por olhos e olhares, por isso em seguida foi cursar Optometria, uma profissão que embora seja reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, no Brasil ainda é relativamente nova e luta por reconhecimento e espaço. É como optometrista que ganha a vida. Bianca acredita que a poesia é para todos e por isso milita como pode, organizando saraus em parceria com movimentos populares, é associada e programadora da Rádio Comunitária Campeche, no bairro onde mora. É mãe da Helena desde 2007 e em seguida vai parir o livro “No Umbigo do Vento”, através das mãos da Editora Penalux. Teve alguns de seus poemas publicados nas revistas Mallarmagens, Boca a Penas e Plural. Em 2016 fará parte dos poetas que integram o livro/agenda da Tribo.


 
(fotografia: Verônica Almeida Siqueira)

presente

na mão direita
a menina embrulha o barbante
e o aperta
ao encontro do peito
o lado esquerdo do peito
.
o barbante embrulhado
na mão da menina
é o barbante do embrulho do livro
sim, o livro,
o livro cuja história
ressignifica o presente
e o presente
é vida pulsando
:
na História
nos ventos
nos meios
.
manhãs, tardes e noites
.
nas marés
nas saias
nas sinas
.
semanas, meses e anos
.
nas pernas
nas veias
nos olhos
nos seios
na saliva
:
existência
reentrâncias
e urgências

(Bianca Velloso) 



BAP1: Quais as significações que a poesia tem para você?

Bianca Velloso: É um pouco essa urgência, dessas coisas que pulsam no peito. E também este rito de trabalhar a palavra, como um oleiro trabalha o barro. É uma forma de resistência, de nadar contra a corrente. Num mundo que exige a frieza e o consumo a poesia abre um espaço para o sentir. Às vezes tenho a impressão que as pessoas temem a poesia, porque a poesia nos faz olhar para dentro, ao mesmo tempo que nos faz olhar para o outro e como este contato com o outro é sentido.

BAP2: Você pode nos contar mais sobre os saraus que promove e a quais movimentos populares especificamente você se refere? Que resultados concretos surgiram dessas ações?

BV: Este ano estou um pouco devagar nesta história de promover saraus e também em falta com os movimentos populares. A vida prática e a sobrevivência têm me exigido um pouco, mas quero ver se logo volto a atuar, pois a militância faz parte da minha essência. Atuei numa rádio comunitária, pela democratização dos meios de comunicação. A Rádio Comunitária Campeche, que é o bairro onde moro. Junto com o coletivo da Rádio organizei as Quintas Poéticas, que aconteciam toda primeira quinta-feira de cada mês num pequeno restaurante do bairro. O início do ano também estive em contato com o movimento pela Ponta do Coral 100% pública, um movimento que acontece na minha cidade que luta pela preservação de uma área denominada Ponta do Coral, que está em disputa judicial, de um lado um grupo de empresários querendo construir um hotel e de outro lado a comunidade querendo a construção de um parque público. Junto com as poetas Mariana Queiroz e Cândice Guzmán organizei um sarau neste espaço. Numa conversa entre poetas conhecidos através do facebook surgiu a ideia de um encontro real. Fizemos acontecer no pátio da Rádio Comunitária Campeche o 1º Ecopoético – ajuntamento de palavras e pessoas, entre os envolvidos neste processo estavam Adriane Garcia, Homem Arara, Quimera Araucária, Suzana Pires, Pat Zamberlan, Osíris Duarte, Elaine Tavares, Rubens Lopes, Paulo Renato Venuto, Glauco Marques, Zé Amorim, Mariana Queiroz, Diana Román, Núria Rodrigues, Chris Mayer, Júlio de Castro... Veio gente de todo o Brasil pra Ilha de Santa Catarina. Foi um encontro lindo. Depois este encontro aconteceu também em Novo Hamburgo (RS) e em Esmeraldas (MG).

BAP3: Como você está vendo a cena poética da sua região e a do Brasil como um todo?

BV: Vejo um movimento bonito acontecendo. Com muita gente boa escrevendo, organizando saraus. Aqui em Florianópolis destaco o trabalho da Juliana Impaléa que está à frente do Sarau Boca de Cena, da Mariana Queiroz, da Cândice Guzmán (minhas parceiras), da Tatiana Cobbett e do Marcoliva, da Fêre Rocha... E no Brasil acredito que esta “era digital” facilita e possibilita encontros muito interessantes. Possibilita que poetas de lugares tão distantes se encontrem e troquem ideias, poemas... Nascem parcerias lindas. Existe, por conta desta rede, um sentimento forte de contemporaneidade. É uma delícia poder dialogar com os iguais, descobrir um igual lá do outro lado do Brasil (e em alguns casos até do outro lado do oceano). Este movimento todo nos faz perceber que a literatura é feita também por escritores que não estão no mercado editorial. Que tem literatura de qualidade fora do eixo das grandes editoras.
 
BAP4: Em termos artísticos, quais são os seus maiores sonhos e metas?

BV: Como diz Manoel Herzog, eu sempre escrevi para consumo próprio. Não tenho grandes ambições. Não sonhava com livros editados. Mas as coisas foram acontecendo e estou curtindo este momento. Meu primeiro livro, intitulado “No umbigo do vento” está saindo do forno, pela Editora Penalux. E acabo de receber um convite da Editora Scenarium para escrever um livro artesanal, já estou trabalhando nele e deve sair em novembro, pra mim um presentão de aniversário. Mas o que eu quero mesmo e vou procurar trabalhar nisso a partir do ano que vem, é a democratização da poesia, é que as pessoas se apropriem do fazer poético, que experimentem o processo de escrita. Estou conversando com algumas pessoas da minha cidade e quero organizar oficinas que levem a poesia ao alcance de todos.

BAP5: É comovente constatar o amor que existe entre você e sua filha, Helena. A maternidade foi um divisor de águas na sua produção poética?

BV: Não sei... Quando Helena nasceu eu estava há um bom tempo sem escrever. Quando ela fez um ano e começou a fazer gracinhas minha irmã foi morar na França. Para que ela acompanhasse o crescimento da sobrinha criei o blog “poesiacotidianabia.blogspot.com.br”, que inicialmente contava as historinhas do meu dia-a-dia com a Helena. Ali eu percebi que mesmo que eu não estivesse escrevendo poemas, minha vida estava repleta de poesia. Voltei a escrever mesmo em 2012, quando participei de um grupo de canto, coordenado pela Patricia São Thiago, que é musicoterapeuta. Através da música entrei em contato com coisas que estavam esquecidas dentro de mim, entre elas o prazer da escrita. Através da internet conheci o Manoel Herzog que foi me colocando em contato com muita gente do meio. Herzog é “meu padrinho literário”.

BAP6: Como você consegue administrar suas atividades diárias como profissional de optometria, mãe, dona de casa, vida pessoal, com a criação poética?

BV: A poesia está em tudo isso, né? Está presente no olhar e nas histórias dos meus pacientes, nas travessuras e nas descobertas da minha filha, no quintal de casa, na pia cheia de louça, nas pequenas cumplicidades do cotidiano. Basta que se tenha sensibilidade para ver. Aí vem aquela urgência da escrita. Anoto em algum canto a primeira ideia. Depois vou lapidando, geralmente nos intervalos de trabalho, entre um paciente e outro. Às vezes eu percebo algo e aquilo fica na memória. Existem dois momentos muito fortes onde o percebido começa a ser transformado em poesia. E é engraçado que são dois momentos em que não tenho como escrever. Durante o banho e também quando estou dirigindo. Levo a ideia comigo até que eu possa rabiscá-la. Depois durante o dia vou trabalhando as palavras.

BAP7: O que mais te influencia a escrever: a vida que te rodeia ou os autores que você lê? Por falar nisso, quais são os seus autores favoritos?

BV: A vida que me rodeia me influencia nos temas. Os autores na forma. Dos autores famosos gosto muito do Manoel de Barros, do Eduardo Galeano,do Gabriel García Marquez, da Alice Ruiz, do Arnaldo Antunes, da Adélia Prado, da Sophia de Mello Breyner Andersen, da Wislawa Szymborska. Mas de verdade eu tenho preferido aqueles com quem eu dialogo de forma direta, que é o que fortalece este sentimento de contemporaneidade. A gente dialoga com estes famosos também, lógico, mas não tem resposta. É um diálogo unilateral, digamos assim. Gosto e me identifico muito com a poesia de Liria Porto, de Adriane Garcia, de Nil Kremer, de Adriana Zaparolli, de Carla Carbatti, de Simone Teodoro, de Carlos Moreira, de Mariana Queiroz, de Mariana Gouveia, de Lunna Guedes, de Lázara Papandrea, de Fabíola Mazzini Leone, de Inês Monguilhotti, de João Carrascoza, de Tania Amares, de Quimera Araucária, de Suzana Pires, de Aden Leonardo, de Luciane Lopes, de Fêre Rocha, de Cândice Guzmán, de Claudio Castoriadis, de Joe Salles, de Alberto Lins Caldas, de Valéria Tarelho, de Natasha Félix, tanta gente boa...

BAP8: Pensando na sua filha e na geração dela, se você fosse Ministra da Educação que providências tomaria para transformar a poesia num gênero de literatura mais popularizado e acessível?

BV: Se eu fosse Ministra da Educação eu levaria o Diovani Mendonça para trabalhar comigo, porque acredito que é preciso levar a poesia para a escola, mas de forma lúdica. E o Diovani tem um trabalho lindo neste sentido. Ele faz oficinas poéticas, leva poetas para a escola, brinca com a leitura e a declamação, incentiva as crianças a experimentarem o fazer poético e depois leva esta produção para espaços e publicações populares, imprime estes poemas em sacos de pão. Tem coisa mais bonita que isso? Pão com poesia? Como diz Natália Correia “oh, subalimentados do sonho, a poesia é para comer”.


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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Denise Moraes, Lourdes Rivera e Marcelo Mourão

3 comentários:

  1. Essa é a minha filha. Parabéns, filhota.

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  2. Essa é a Bianca Velloso, mais uma grande poeta que eu estou conhecendo. Beijos!

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