domingo, 3 de julho de 2016

OITO PERGUNTAS A PENAS com CLAUDINEI VIEIRA



Claudinei Vieira, autor do livro de contos ‘Desconcerto’, editado pelo selo Demônio Negro, ‘Yũrei, Caberê’, publicado pela editora Patuá, integrante da coleção Patuscada, premiado pelo ProaAC - Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, e participante de várias antologias de contos e poesia, como ‘Visões de São Paulo’ (Tarja Editorial), ‘Sobre Lagartas e Borboletas’ (TUBAP/Scenarium), entre outros, o mais recente ‘Golpe: Antologia-Manifesto’ (livro digital). Além das contribuições para vários sites, blogs e portais, com resenhas, ensaios, entrevistas. textos de ficção e de não-ficção.

Organizador de eventos e encontros literários culturais, como o cineclube Pandora (que durou cinco anos de atividades na Universidade de São Paulo) e, atualmente, dos Desconcertos de Poesia que , depois de atravessar por várias localizações pela cidade de São Paulo, como Praça Roosevelt e Casa das Rosas, está atualmente no Patuscada - Livraria, Bar & Café, na Vila Madalena.




Quero lhe dizer
não, Preciso lhe dizer
- cuidado, deixa o carro passar -,
não pretendo lhe atrasar mais,
porém, é muito importante
- cuidado, deixa a moto passar,
deixa o sinal abrir,
cuidado, deixa meu coração transbordar -,
o pingo da chuva gelada
não acalenta seu rosto:

Gostaria de lhe dedicar um poema urbano,
uma trilha de palavras paulistanas
que lhe ajudem a atravessar o dia,
a secar o pingo gelado na testa,
a pisar pelas listras molhadas da faixa de pedestre.

Quero que sinta este poema
como o primeiro gole do café da padaria,
como a primeira onda do cheiro da manteiga
do pãozinho na chapa,
como a primeira lembrança morna
de nossos corpos ávidos de calor noturno.

E lembre que o primeiro sorriso que lhe acordou
nesta madrugada aturdida de frio paulistano,
o sorriso de uma boca torta ainda sonolenta
já saudosa dos agasalhos insuficientes,
este sorriso que lhe aquecerá durante este dia inteiro
mais do que aqueles agasalhos insuficientes,
aquele meu sorriso, ainda que torto, ainda que meio-frio,
foi a primeira letra do primeiro verso
deste poema urbano que lhe dedico.


poema urbano para aquecer chuva

do livro YŨREI, CABERÊ

editora Patuá





BAP1: O que o torna um bom escritor e o que o torna um bom leitor?

Claudinei Vieira: Bem, essa é uma perguntinha tão simples na aparência… rs. O que a torna complicada é a minha implicância com a palavra ‘bom’ nesse contexto. O que torna a ‘mim’ um bom escritor?!
Falando em termos gerais, antes de mais nada, eu quase caio na armadilha de tentar uma saída fácil e dizer um certo clichê de que o que vale na literatura (e em qualquer arte) é sua capacidade de encontrar ressonância, empatia, ligações com outras pessoas que não somente o próprio autor ou artista. ‘Ulisses’ de James Joyce seria somente um enorme e indigesto trabalho de um intelectual arrogante se não houvesse um mínimo de resposta por parte de leitores. Nenhuma literatura, nenhuma arte, faz sentido se a obra ficar escondida ou, quando exposta ou lida, não encontrar um mínimo de relevância, não criar um mínimo de importância, para os demais. Assim, literatura bestseller, de alta rotatividade, de criação esquemática, mesmo assim teria sua relevância, pois com certeza, encontra um público que se sente satisfeito, se contenta com essa proposta.
Minha implicância com o ‘bom’, no caso é o meu medo de pensar a literatura como forma elitista de arte. Sei lá, Literatura em maiúscula para a ‘parte inteligente’ do povo e subliteratura de massa para os demais. Não acredito nisso. Toda literatura tem sua validade. Toda poesia encontra seu eco. Toda arte deve ser popular. Balzac e Dostoievski escreviam em folhetins. Árias de óperas eram cantadas pelas ruas. Raymond Chandler e Dashiell Hammett escreviam em pulp fiction, livrinhos em encadernações vagabundas vendidas em bancas de jornal.
No entanto…
O problema com essa resposta é que, se a levarmos às últimas consequências, deveríamos considerar Paulo Coelho e Dan Brown como literatura! E isso não é possível…
Ok, então essa resposta é, no mínimo, insuficiente.
Há uma outra dimensão sobre a questão literária: o comprometimento da arte para com si mesma. A busca pelo aperfeiçoamento de sua matéria-prima. A busca pela excelência cada vez mais bem arquitetada. A busca e a incessante ânsia de novas formas de contar uma história ou passar um sentimento (ou pensar ou refletir ou embalar ou emocionar) que saia das velhas estruturas ou fórmulas já usadas e repetidas sem esforço. Dessa forma, a literatura não tem compromisso com o tema ou a história ou as intenções ou com ideologias: ela deve se bastar a si mesma, deve ser coerente com si mesma. ‘Boa’ ou ‘má’ literatura se definem somente como a exigência de ser mais, muito mais, bem construída, sempre.
Portanto, por exemplo, um texto ou um poema (ou filme ou um quadro) que, com a melhor das intenções, pretenda fazer uma denúncia político-social mas seja mal escrita, mal-acabada, mal desenhada, mal filmada (e, portanto, tenha perdido seu compromisso consigo mesma enquanto arte) torna-se simplesmente um panfleto. O ruim aqui não é o de se tornar um panfleto; é o ruim. ‘O Analfabeto Político’ de Brecht, ‘Poema Sujo’, de Gullar, ‘Guernica’ de Picasso, ‘Estado de Sítio’ de Costa-Gavras, são obras de arte, não pelos temas (de denúncias político-sociais) que trataram ou pela repercussão que receberam das pessoas, mas por terem perseguido um nível de qualidade máximo (e, nesses casos, plenamente conseguido), por terem se respeitado a si mesmo como expressão, cada um dentro de sua arte.
Assim como, e da mesmíssima forma, não é uma questão de gênero ou estilo ou formatação, ‘alta literatura’ ou ‘literatura de entretenimento’. É o mesmo critério. Romances policiais podem resultar em livrinhos de final de semana. Ou ‘O Longo Adeus’, de Chandler. Ou ‘Crime e Castigo’ de Dostoievski.

POIS BEM,
tudo isso para tentar responder se me considero um ‘bom’ escritor:
O que posso dizer é que me considero um escritor (e, nos últimos anos, especificamente, um poeta) em construção. Tenho por fundamento a minha ansiedade em procurar formas de expressão que sejam mais bem construídas, gosto de brincar com as palavras e os sentidos, gosto de encontrar choques entre as palavras e os sentidos, gosto da alegria quando sinto que (às vezes) eu consigo isso. Ainda há tanto o que montar, o que refinar, é um trabalho cansativo, mas extremamente gratificante.
E, por outro lado, percebo que alguma coisa do que escrevo e poeto e penso encontra eco nas pessoas, em leitores. Tenho tido o gosto, a surpresa e o prazer de encontrar leitores que gostam do meu trabalho entre alguns poetas de longa carreira que admiro e respeito demais! e entre pessoas que nunca antes tiveram contato com poesia e passaram a gostar por causa dos meus poemas! (não é lindo isso?).
PORTANTO
não digo que me considero um ‘bom’ escritor ou poeta. Busco ser. E acho que alguma coisa tem, sim, qualidade. E que essa tal qualidade (ou sensibilidade ou cuidado, como queiram) encontra uma boa resposta de leitores.

-

Quanto a ser um ‘bom leitor’ - rs, também tenho problemas com a expressão. Para ser sucinto, me considero um leitor livre. Não tenho preconceitos, sempre li de tudo, sempre aproveitei de tudo um pouco, e não concebo ter uma ideia sobre determinada obra ou autor ou gênero ou estilo, sem antes tê-la experimentado ou constatado por mim. Não formo opinião sobre algo que não li. E leio qualquer coisa. Citei os clássicos acima e os amo, assim como fantasia e ficção científica, dramas históricos e biografias, literatura infanto-juvenil e romances policiais. Literatura brasileira, latino-americana, russa, francesa, japonesa. Javanesa, não. Clássicos. Bestsellers. E por aí vai.

[ Apesar do que disse acima sobre Paulo Coelho, eu só firmei minha opinião Depois de ler (ou tentar) várias obras; assim como Stephenie Meyer, livros de autoajuda ou espíritas. Só depois disso posso afirmar, com propriedade e conhecimento, que são obras que criaram e cultivaram um público cativo e tem lá seus méritos (para esse público cativo), mas que não possuem nenhum compromisso com literatura ]

Em poesia, sou ainda mais aberto. Amo descobrir coisas novas, poetas novos, sensações novas. Sexo quase chega perto desse prazer.


BAP2: Sobre os saraus dos grandes centros urbanos: fórmula antiga ou um novo caminho?

CV: Segundo Regina Tieko, uma das criadoras e organizadoras do Sarau Encontro de Utopias que se reúne mensalmente no Centro Cultural Vergueiro em São Paulo, há cerca de duzentos coletivos de sarau atuantes, isso só no estado.

Saraus são uma realidade patente. Em vários formatos, tamanhos e expectativas. Funcionam como apresentação de trabalhos e artistas que já estão na estrada há bastante tempo e não possuem visualização nas grandes mídias; como revelação de novos artistas que ainda estão procurando sua voz e encontram, no mínimo, um grande incentivo; variam como encontros de simples leituras individuais, à mesclas de apresentações musicais ou verdadeiros shows, ou inclusive, performances estilizadas que misturam textos, canções, teatro, e aparatos áudio-visuais. Com grupos que se encontram há anos, décadas até, ou recém-chegados, já entusiasmados com as possibilidades de encontrar pessoas, trocar ideias e artes e, assim, todos se desenvolverem.

Como sou limitado pela minha vivência e experiência predominantemente do Sudeste e paulistana em específico, não posso falar por outras regiões. Mas só consigo imaginar que a enorme variedade, profundidade, extrema beleza, tesouros culturais que constantemente são mostrados e revelados por aqui, se formos extrapolar para os limites nacionais, devem aumentar de forma exponencial. Cada um com suas características, óbvio, com maior ou menor organização ou periodicidade, ou impacto, ou maior ou menor apoio público. Eu só sei que a enorme quantidade de artistas excepcionais, de poetas vigorosos, músicos vibrantes, é real, é presente, e para todos os gostos.

No mínimo, são muito, muito, divertidos.


BAP3: Quais as dificuldades e alegrias que você tem encontrado na carreira?

CV: Como todo autor estreante de todo lugar de todos os tempos, a grande, quase inalcançável dificuldade sempre foi a de conseguir publicar o livro. Batia-se de porta em porta de editoras até alguma topasse bancar a publicação (e sem garantia de continuidade) o que levaria anos, pelo menos. Ou, se quisesse bancar de próprio bolso, os custos excessivos e a falta de estrutura para distribuição, inviabilzavam na prática. (lembremos que exceções existem e as que deram resultado também, mas são exceções, certo?). Durante muito anos foi exatamente por isso que passei (ou não passei já que não consegui publicar o meu livro de contos por uns , acho que, uns quinze anos, por baixo).

Hoje isso mudou de modo drástico. Publicar , mesmo que continue difícil, não é o bicho-papão de antes (aff! a expressão ‘bicho-papão’ ainda existe, é reconhecível, ou é somente mais um sinal da minha idade?... bem, continuo). Equipamentos gráficos permitem tiragens de poucos exemplares que podem ser usados como forma de divulgação ou para vendas pequenas, e que podem ser repostas conforme a necessidade e a demanda (antigamente, as máquinas enormes só podiam publicar, só era viável economicamente publicar, no mínimo, mil, mil e quinhentos exemplares, dos quais somente uma parcela miserável seria vendida; o resto, ficaria como encalhe).

A internet é esse assombro que conhecemos hoje. A intensa interrelação dentro das redes sociais abriram possibilidades de intercâmbio e de conhecimentos pessoais completamente inimagináveis há pouco anos. Avalanches e avalanches de informações, textos, imagens, vídeos, a todo momento. Nunca se escreveu tanto. Nunca se comunicou-se tanto. E, se boa parte disso tudo é puro lixo ou distração rasa, como dizem tantos, outra muita parte disso é muito boa, há muita coisa extremamente interessante, relevante e deliciosa sendo veiculada nesse exato momento, sendo escrita, produzida, filmada, poetada, cantada, distribuída e compartilhada neste exato instante.

Portanto, publicação já não é mais o impedimento (‘bicho-papão’). É a falta de leitores. É conseguir realizar um destaque e captar a atenção de pessoas para o nosso trabalho enquanto rola essa mesma avalanche ao nosso redor. Cada vez mais se diz (e isso não é nada novo, mas está ficando realmente grande) de que há mais escritores, muito mais escritores, que leitores.

Há poucos dias, conversando com o grande poeta Rubens Jardim, ele dizia que se os poetas se lessem uns aos outros, se se comprassem uns aos outros (não em grande quantidade de uma só vez que sabe-se a pobreza dos escritores em geral), aos poucos, mas constante, os próprios conseguiriam se manter. Eduardo Lacerda, da valorosa editora independente de poesia, a Patuá, que publicou centenas de poetas e alguns prosadores, reconhecida e admirada, e que já obteve vários prêmios literários importantes, volta e meia fala do seu intenso desânimo ao constatar o quanto os livros de seu imenso catálogo simplesmente não vendem.

Bueno, como não vejo perspectiva disso mudar (e acredito que nem o próprio Rubens pense isso), essa é a nossa grande batalha a ser conquistada: criar uma cultura de leitura em um país arrogante e até orgulhoso da sua ignorância.

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Sobre alegrias.
Há dois momentos especiais que não posso deixar de citar.
O primeiro foi quando completei a escrita do meu primeiro livro, Desconcerto, de contos. Quando me coloquei a palavra fim. Foi quando me considerei , de verdade, assumidamente, um escritor. Contemplei o calhamaço e me permiti ter orgulho. Eu não sabia se estava bom, se algum dia eu conseguiria publicá-lo, ou se alguém o leria. O que eu sabia, com toda certeza, foi a sensação inebriante dessa conquista. Muito tempo levou até conseguir, de fato, editá-lo, muitos cortes, revisões, reformulações, desânimos, negativas. Aos poucos, tive algumas respostas realmente estimulantes; alguns escritores que tanto admiro leram e responderam de modo entusiástico, como Luiz Rufatto e Márcia Denser! (que acabou escrevendo o prefácio!, honra infinita). Até ser afinal publicado e lançado pelo belo selo Demônio Negro, de Vanderley Mendonça. Entre desânimos, desgastes e retornos e recompensas, esta primeira vez de orgulho foi marcante e profunda, permanece ainda comigo. É o que ainda me move.
O segundo que faço questão de contar é de quando uma grande amiga comprou o meu segundo livro, ‘Yũrei, Caberê’, de poesia, e ela (que não é chegada em poesia) me retornou na mesma noite (ou no dia seguinte) com um e-mail contando da experiência de ler o livro na volta para casa, embalada pelo movimento e barulho do trem, e do modo como meus poemas se encaixavam no ambiente e que foi dormir pensando em alguns personagens do livro. Já recebi alguns elogios marcantes, tanto pela internet quanto em pessoa, mas devo dizer, esse foi particularmente emocionante. Não é exata essa a resposta que um escritor, qualquer escritor, qualquer artista, gostaria de ter?

BAP4: Conte sobre o impacto do ProAC 2014 para o seu livro Yũrei, Caberê (Ed. Patuá, lançado no final do ano seguinte).

CV: Foi o que me definiu (para mim mesmo) como poeta. O Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo – ProAC foi iniciativa de Eduardo Lacerda, da editora Patuá que concebeu o projeto da coleção Patuscada de jovens autores com seu primeiro livro de poesia e, depois, do Patuscada 2 (o qual participei com o meu ‘Yũrei, Caberê’, meu segundo livro, mas pude fazer parte porque o primeiro tinha sido de contos). O projeto financiou a publicação das obras e a distribuição por bibliotecas públicas, uma parte ficou com a Patuá, e a outra parte (maior parte, aliás, 700 exemplares) com os autores.

Ok, eu sempre escrevi poemas na minha vida, desde criancinha pequena em Guarulhos, São Paulo. No entanto, sempre me considerei um prosador que, de vez em quando, escrevia poemas e sonhava ser considerado um poeta.

Depois da publicação do meu livro de contos, entrei em um processo pessoal complicado, de reclusão tremenda, melancolia e depressão que durou alguns anos e me fez perder muita coisa (trabalhos, amizades, projetos, textos…). Posso dizer com segurança que escrever poesia fez parte incontestável do meu processo de recuperação (além da ajuda de amigos, sem a qual não teria conseguido manter minha sanidade). Em 2014, esse processo se tornou de verdade intenso, quando descobri que havia muita coisa que eu não estava conseguindo exprimir em prosa, nos contos, nos textos de facebook. E, de repente, explodiu e percebi que a poesia, afinal, estava fluindo e percebi uma alegria e uma vontade que há muito estavam ausentes. Em poesia, estava sendo possível.

No meio desse processo, Eduardo Lacerda avisou que selecionaria alguns autores para participar do Patuscada 2, quem estivesse interessado lhe mandasse alguns poemas para avaliação. Mais do que alegre, para dizer a verdade, para mim foi um grande choque ter sido selecionado entre os seis autores da coleção.

Ter sido premiado pelo ProAc proporcionou a publicação do livro, restabeleceu minha confiança e minha alegria em escrever, e me entendo agora, e é o que sou agora, não mais um prosador que escreve poemas, mas um poeta que também escreve prosa... de vez em quando. Me aperfeiçoar, buscar maior qualidade no meu trabalho e na minha poesia, é o mínimo que posso fazer pelo Eduardo e pelos amigos que confiaram e me apoiaram estes anos todos.

BAP5: Qual o segredo para sobreviver em São Paulo?

CV: Essa pergunta é quase uma pegadinha, certo? Quem tiver esse segredo, por favor, me diz também - heheheheheh.

Como diz a frase?, ‘Caminhante, não há caminhos, há o caminhar’. Em São Paulo, não há meios, ou segredos, de sobrevivência: se sobrevive. Ou se morre. E isso se aprende na marra, na lata, no instante preciso, na vida alongada (ou, em tantos casos, encurtada). O fato é que, a complexidade, os conflitos, os contrastes, existentes em toda grande metrópole, são ainda mais agudos, prementes e angustiantes nas de Terceiro Mundo (não sei se a expressão ‘Terceiro Mundo’ ainda é válida, politicamente correta ou até gentil. Que seja. Estou usando o sentido pejorativo em plena consciência).
Nas metrópoles fodidas de Terceiro Mundo, a violência é a regra. Violência física, moral, social, artística, humana e animal. Em São Paulo, no entanto, me parece que as coisas acontecem em surtos de estupor inauditos. E contrastantes, não esqueçamos. A criatividade, a arte, a beleza, também fazem parte, são parte da mesma moeda encardida.
E os paulistas e paulistanos são uma espécie de seres humanos não devidamente estudada pela ciência. Temos uma juventude pequeno burguesa arrogante, caldo em fermentação de cultura totalitária. E outra parte da juventude que serviu de exemplo para o país e para o mundo ao afrontar um governador protofascista e invadir escolas que seriam desmanteladas pelo estado, obrigando-o a recuar (pelo menos, por um tempo). São Paulo é o local de nascimento de um partido de massas gigantesco (que já foi dos trabalhadores, um dia) e, ao mesmo tempo, insiste em eleger um partido há vinte anos que se esmera em quebrar, humilhar e pauperizar o estado e a imensa população… Arte e cultura refinados, explosões literárias, musicais, teatrais (vide a quantidade de saraus existentes) ao lado de uma onda de práticas políticas e comportamentos moralizantes reacionários e idiotizantes que, silenciosamente, está fechando bares e teatros, pontos de cultura, seca fontes...
E, no meio disso, há Poesia. Sempre. Porque o ser humano (até mesmo o paulistano) insiste em sobreviver. Mesmo no tacho do Terceiro Mundo. Mesmo em São Paulo.


BAP6: Desconcertos: como é o exercício da poesia fora do livro?

CV: Primeiro há que se dizer que são coisas diferentes: a poesia escrita feita para ser lida em livros (ou telas de computador) é outra arte em relação à poesia falada. Mesmo que tenha por base o mesmo texto. É outra arte. É outro trabalho. É outro esforço. Na poesia falada, há o som da voz de quem declama, canta, o som do barulho ou do silêncio ao redor, o som do coração de quem ouve. Há a visão, há a presença.
É comum, um erro frequente, autores não se prepararem para ler seus textos. Mistura de timidez com inexperiência de falar em público, ou de pensar que o texto, o poema, se basta em si. E, não, não se basta.
A poesia falada é uma apresentação. Literalmente. Não precisa ser uma performance como um Ricardo Aleixo faz tão bem, tão poderosa. Mas, precisa-se ter, no mínimo, a consciência de que sua voz precisa ser ouvida ou que um microfone às vezes é imprescindível, que não é um animal estranho selvagem, se se deseja que as pessoas mais distantes também ouçam, principalmente em ambientes sem acústica apropriada...
Quando comecei os encontros Desconcertos de Poesia, eu não sabia nada disso. Ao falar dos poetas que estranham usar microfone, me referi a mim mesmo. Assim como, ainda hoje, a minha dicção é ruim, embolo palavras, guaguejo a ponto de me tornar ininteligível por vezes. Tímido [ embora já com uma boa experiência de palco ] [É isso!: agora sou experiente em gaguejar em público - rs].
Fui aprendendo na prática (ainda tenho tanto o que aprender…) em episódios de acertos e erros. Nos diversos locais onde aconteceu o Desconcertos, gosto dos lugares abertos com movimento e agitação. Gosto que a sensação esteja longe de formalismos. Gosto dos lugares inusitados, diferentes. Em livrarias, sim, mas principalmente do saguão de entrada ao lado do barzinho no teatro dos Satyros, na Praça Roosevelt. No espaço embaixo da escadaria na Casa das Rosas. No meio do saguão do Centro Cultural quando houve uma Primavera dos Livros. No bar do Patuscada Livraria Café e Bar! (veja-se que quanto mais próxima fonte de cerveja, melhor a localização). Desconcertos é um encontro de amigos (mesmo que nunca tenhamos nos visto antes). Pois poetas! E assim nos reconhecemos.
A minha maior missão desconcertábil é o de tornar o ambiente o mais aconchegante e agradável possível para que todos apresentem sua arte, seus textos, suas músicas, seus universos, que tudo flua, que a Poesia aconteça. A cada noite, eu sempre sinto, pelo olhares das pessoas presentes, pelo ar de emoção expressa, pelo cansaço feliz, que essa missão se cumpriu e isso me deixa sempre muito feliz. E assim o Desconcertos se cumpre. E a Poesia acontece.

BAP7: Quando e como nasceu seu interesse pela literatura? O que o move a escrever?

CV: Os maiores responsáveis pela minha formação literária, intelectual e pela minha ânsia em querer escrever desde minha infância (literalmente) foram : Tio Patinhas, Agatha Christie e Dostoievski.
Tio Patinhas porque eu ansiava tentar entender as historinhas, os diálogos, as aventuras. Enchia o saco do meu tio para me ler os gibis e, depois de cada leitura, a minha ânsia virava quase desespero. Entrei na escola e me esforcei com todo afinco para compreender os sinais esquisitos que me fariam compreender a família Pato (e os gibis em geral). Ainda hoje me lembro do fascínio que foi aprender as frases do Caminho Suave e, garanto, a primeira vez que li, com conhecimento, que ‘Vovô Viu a Uva”... foi emocionante, rs.
Logo, os gibis ficaram poucos e insuficientes. Eu lia muito, vorazmente, com pressa e muito rápido. Em minutos terrminava a revista e ficava frustrado à busca de outra. Foi quando percebi os livros, com muito mais texto para ler, com muito mais tempo de prazer. E assim foi.
Com Agatha Christie veio a vontade de ser escritor. Fiquei tão fissurado com a leitura de ‘Os elefantes não esquecem’ que me tomou uma imperiosa necessidade de fazer aquilo também. E parecia tão fácil , tão simples! Bastavam alguns personagens bacanas, um esquema básico de assassinato e encobrimento de pistas. Sentei, fiz um diagrama e comecei, com esforço a esboçar a trama. Eu devia ter uns oito anos, nove no máximo. No dia seguinte ao meu primeiro esforço literário da minha vida, desisti. Não era tão fácil assim. rs . Mas essa sensação, a de tentar contar uma história, traduzí-la em narrativa, construir personagens, nunca deixei de sentir. E foi Agatha Christie a primeira a me instigar.
Não muito depois disso, encontrei na biblioteca um livro de capa preta do Círculo do Livro, com as letras douradas já meio borradas e difíceis de entender e do qual eu só sabia do autor ser russo. ‘Crime e Castigo’. Levei para casa, curioso, e na mesma noite comecei a ler.
Até o término da primeira parte, quando Raskólnikov finalmente comete o crime que tanto planejara, o assassinato de uma velha usurária e de mais uma pessoa. Nesse ponto, tive de parar para tomar fôlego. Lembro vividamente de mim nesse momento: um garoto sentado no canto de um quintal de areia ao pé de um muro aproveitando a sombra, tentando esquecer o calor. E, na verdade, me toquei de que não estava em uma cidade russa coberta de neve. Não estava do lado de um jovem estudante pobre assassino embora meu coração estivesse palpitando tão forte quanto o dele, eu tinha certeza. Era um livro e nenhuma droga (anos depois, nos meus anos mais loucos) foi tão poderosa assim, nenhuma me proporcionou viagem tão portentosa.
Tio Patinhas me atiçou o desejo urgente de saber ler. Agatha Christie me deu a vontade de ser escritor, de contar histórias. E Dostoievski me mostrou o que alturas a literatura poderia me alcançar. E desejei tudo aquilo, de novo e de novo. Fiquei viciado e nunca me libertei disso, nem nunca quis.
O que veio depois foi consequência dessas minhas primeiras leituras.

BAP8: Claudinei Vieira por Claudinei Vieira.

CV: ah, essa é a resposta mais fácil de todas.
Quem é Claudinei Vieira?
Não sei.
Talvez eu possa aumentar e dizer:
Não faço a menor ideia.
Posso ser um tanto pedante e pronunciar:
Um ser humano à procura de sua substância. E força (já que não acredito em destinos ou forças sobrenaturais, além das que nós mesmos forjamos).
Ou, talvez ainda, uma frase bonitinha, vai:
Claudinei Vieira, um aprendiz de poeta.

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Entrevista realizada pela equipe do BAP.
Chris Herrmann, Adriana Aneli e Caetano Lagrasta

2 comentários:

  1. Bom humor e intensidade: Claudinei Vieira desconsertando o óbvio e tornando a literatura oxigênio.

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