terça-feira, 3 de janeiro de 2017

OITO PERGUNTA A PENAS com ANA FARRAH BAUNILHA


Ana Farrah é gaúcha de 1981. Teve sua escrita notada nas redes sociais quando seus textos começaram a ser publicados em blogs e em diversas revistas eletrônicas de literatura contemporânea do Brasil e de Portugal. Participou da coletânea de contos Sete Pecados, pela editora Scenarium Pural e da Antologia Contemporâneas na Revista Vidas Secretas, editada por João Gomes. Participou da coletânea ESCRIPTONITA, pela Editora Patuá, 2016. Autora do livro Orquídea Trepadeira e outras flores ordinárias, pela Editora Benfazeja, 2016. Publicou poemas também no Livro da Tribo, pela Editora da Tribo. É colaboradora/curadora na Malarmargens, revista virtual de poesia e arte contemporânea. Escreve poesia sarcástica, mas transita entre outros estilos. Ana no momento trabalha  com  estética e escreve nos intervalos entre uma massagem e outra.
"Ana Farrah é uma amante insaciável. Sua poesia suja e debochada desconstrói a seriedade já tão entranhada no velho mundo."  - Diego Moraes.



Tô o cão, hoje
amanheci faminta
louca por um sim
mas recebi o soco de um não
vou usar meu desaparecimento estratégico
meu silêncio selado à vácuo
chuparei essa manga
engolindo o caroço
quebrarei a louça por tédio
sem fazer dramalhão mexicano
mas por hábito das mãos estabanadas
distraídas da função de mão
me corto me queimo machuco
dois, três dedos
nem registro a dor
seguro coisas
e não as sinto nem vejo
que a qualquer momento
escaparão da boca ao chão
como acontece sempre
com tudo aquilo que tentei segurar
uma vida todinha tentando segurar
e um polegar opositor deficiente
AFB



BAP1: Quando você começou a escrever poesia? Quais foram suas influências?

Ana Farrah: Tinha 13 anos quando ganhei uma agenda chamada Livro da Tribo, onde descobri poemas e poetas geniais, como Líria Porto, Lau Siqueira, Alice Ruiz e Leminski. Comecei a escrever mais por imitação do que por talento. Depois veio a Ana Cristina Cesar e, fora a parte do suicídio, eu quis ser como ela.

BAP2: Debochada, suja, mal falada e sem compostura... No universo da Ana literária, são estas as representações do feminino?

AF: Dispenso estes rótulos. Considero qualquer intenção de rotular a minha escrita como falha. Disseram que faço poesia erótica, erraram feio. Sou debochada e desbocada, isso é verdade, o que pode transparecer nos poemas. Faço composições estratégicas entre poesia e imagem, geralmente uso fotografias sensuais pra ilustrar os textos na rede social e fazer chamariz, isso incomoda as pessoas. Quem só enxerga as imagens e não absorve o contexto implícito, considera tudo pornografia. Às vezes o texto é pra falar da FLOR, mas a foto tem uma moça com os dedos no umbigo. As pessoas não entendem!

BAP3: Quais foram as suas leituras preferidas e quais os livros que ainda gostaria de ler?

AF: A obra de Mario Quintana me abriu vários caminhos, a escrita do Luiz Fernando Veríssimo me influenciou deverasmente. Depois descobri escritoras contemporãneas sensacionais que me marcaram pro resto da existência: Carla Diacov, Ana Peluso, Nina Rizzi, Bruna Beber, Ana Rüshe, Ivana Arruda Leite, entre outras. Ainda quero ler uns machos de respeito, como o Nuno Ramos, Mike Sullivan, Santiago Nazarian e os gringos dos quais não tenho referência alguma e sempre fico de fora nas conversas.

BAP4: “O resto é perfumaria e maquiagem”... Na realidade que permeia a sua obra, você se sente censora ou vítima?

AF: Vítima, sempre; porque minha vida foi regada de injustiças. Tenho vários textos trágicos, historinhas cruéis baseadas em acontecimentos reais sobre abuso, violência, humilhação, machismo. A mulher que consegue se abster de falar sobre faz uma opção, nem por isso está livre de vivenciar as injustiças.

BAP5: A literatura erótica contemporânea está, na sua opinião, ganhando o espaço merecido?

AF: Acho que estão é abusando do erótico, jogando a poesia erótica no asfalto, tanto que se perde o sensual da escrita, virou escracho do esculacho, não gosto. Fala-se muito em 'jorros', em 'gozos', em 'gemidos e estocadas fortes', essa literatura pingando porra não me convence, me parece um ensaio fraco na expectativa de um adolescente que um dia vai perder a virgindade no puteiro.

BAP6: Marquês de Sade e Gregório de Matos, o ‘Boca do Inferno’, teceram através de sua literatura erótica, satírica e afiada o retrato da vida e da cultura do seu tempo... O ‘lado amargo da Baunilha’ busca tecer um panorama da nossa in-civilidade?

AF: É um panorama pessoal, de tragédias íntimas, que me fizeram amaldiçoar os homens na poesia, apesar de amá-los. O 'lado amargo' é meu lado BRUXA, rogadeira de pragas, que sente uma fúria mortal e deseja sim, a morte do amor opressor: esse ódio está implícito até nos meus poemas mais 'bonitinhos'.

BAP7: Se a poeta Ana Cristina Cesar fosse viva e você tivesse a chance de dedicá-la um poema seu, qual seria?

AF: Dedicaria um poema do meu livro de estreia Orquídea Trepadeira, em que uso seu 'risinho modernista' pra falar do que aparento ser e do que sou realmente:

aí que me dizem
tão avançadinha,
'prafrentex'
risinho modernista e tals
mal sabem...
da avó que me habita
da tia véia que mora em mim
das comadres espiadeiras que me movem
sou assim, tão antiquada e disfarçada
que na rua, quando me apontam
procuro meu guarda-chuva imaginário
de bater na cabeça dos muleque
quando falam bestagi
e guardo, com a devida espera das moças
antigas
meu veuzinho de noiva...
é que sou e sempre fui
moça casadoira


Ana F

BAP8: Você já tem um plano ou tema para a sua próxima publicação?

AF: Sim, tenho. Será poesia, seguindo a mesma linha: yakissoba com farinha. Com menos palavrão e mais amor, que eu ando bem romântica e menos rancorosa.




__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli

10 comentários:

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  2. uma orquídea de pétalas autênticas

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  3. Li a entrevista, agora estou fechada para balanço! Aqui jaz Giselle Ribeiro! Depois quem sabe digo: Aqui rock. Aqui blues. Aqui samba. Mas por enquanto, aqui jaz eu.

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  4. Talentosa e querida, Baunilha. Arrasou! Parabéns, Ana Farrah!

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  5. Arrasou!!! Autêntica sem meias palavras ou meias verdades...igual suas poesias.. sou fã!!!

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