quinta-feira, 2 de março de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS com VALÉRIA TARELHO


Valéria Tarelho, natural de Santos/SP (1962), residente em São José dos Campos/SP, separou-se da advocacia devido a um caso com a poesia. Seus primeiros escritos datam de abril de 2002.
Publica no Livro da Tribo, desde a ed. 2004, tem poemas em livros didáticos do ensino fundamental e ensino médio, antologias, poemas musicados e encenados no projeto Poeta em Cena, 2009, da Casa das Rosas. Escreve no site "escritoras suicidas" (http://www.escritorassuicidas.com.br), em seu blog pessoal, "textura" ( http://valeriatarelho.blogspot.com ).
É autora de “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”, Ed. Penalux, 2016, mãe de quatro, esposa de um, avó em exercício, advogada em extinção. Quando crescer, quer ser poeta.





entre o sol e a solidão
amores chegam
e saem
amores cegam
e sabem
semear
o que impressiona
ser
o que impulsiona
são degraus
na escuridão
amores
sempre serão
míticos
egoísticos
apocalípticos
ego & psique
narciso & eco
apolo & jacinto
céu & chão 

Valéria Tarelho,
em “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”,
pgs. 18/19, Ed. Penalux, 2016






BAP1: O que a motivou a ´se divorciar da advocacia´ e ´casar com a poesia´? Foi uma decisão repentina ou está ideia já existia antes?

Valéria Tarelho: Na verdade, eu jamais cogitei escrever algo além das minhas petições. A própria leitura era voltada para livros jurídicos e afins. E não posso culpar a falta de tempo, simplesmente não havia interesse. A poesia passou por mim aos 18 anos, quando ganhei uma antologia de poemas de Vinicius de Moraes. Gostei, lembro que fiz diversos grifos, mas não me aprofundei em leituras, gostava mais de cantarolar Vinícius, do que ler seus poemas. A segunda vez foi através de um livro de literatura do Anglo, onde fui apresentada a Gregório de Matos e Camões (entre outros que não recordo), mas ficou apenas o registro mnemônico de algo agradável. Fui conhecer autores como Leminski, Cacaso, Alice Ruiz, quando ganhei uma agenda da Tribo (1997) e me encantei, sem sequer imaginar ou ter a pretensão de escrever e publicar na agenda que, futuramente, seria o maior e melhor veículo de divulgação do que se tornou um compromisso de fidelidade com a minha existência: escrever poemas.
O caso e posterior casamento com a poesia aconteceu repentinamente. Em 1999 mudei de cidade e fechei meu escritório, passando a advogar esporadicamente. Em 2000 nasceu meu quarto filho e dediquei-me integralmente a ele, até que em 2002 ele foi para a escolinha e fiquei “caçando” o que fazer, comecei a fazer alguns layouts para sites e criei um próprio, de envio de mensagens. Começou aí uma busca incessante por autores para publicar no site e fui me fascinando com esse universo, até então, nebuloso. Não houve nem tempo para flerte, foi namoro sério e casamento relâmpago, quando percebi eu já estava rabiscando uns versos sem técnica alguma ou conhecimento (minha leitura mal alcançava os poetas contemporâneos, imagine os clássicos, ou seja: bagagem zero que desencadeou em uma escrita intuitiva).


BAP2: Seus primeiros escritos datam de abril de 2002. A internet a influenciou, ou os primeiros poemas não foram publicados na rede? 

VT: Sim, a Internet teve total papel de cupido nesse meu relacionamento com a poesia. Assim que me envolvi com os textos de autorias diversas, fui invadida por uma necessidade de me expressar não somente através do olhar do outro, eu precisava gerar meus próprios filhos.
Passei a frequentar grupos de poesia no Yahoo (Gaiola Aberta, Poetas Urbanos, Orpheu, etc...), divulgar poemas na Usina de Letras, blogue pessoal, até que em 2004 tive dois poemas publicados na agenda dos sonhos, o Livro da Tribo, onde me publicam desde então. Foi a primeira vez que vi meus versos impressos no papel , e experimentei a inusitada sensação de que havia algo de valor naquela “brincadeira”.
No fim de 2004 conheci Frederico Barbosa, que foi o maior divulgador do trabalho que eu, timidamente, vinha apresentando (e ainda considerava um hobby). O Fred inseriu poemas meus em suas apresentações no Itaú Cultural, levou-me ao centro do “furacão”, onde a poesia fervilhava em São Paulo, divulgou-me em palestras, entrevistas e onde quer que fosse falar de poesia, especialmente a poesia divulgada pela Internet. Sou especialmente grata a ele pelo impulso que deu ao meu nome no meio literário, cujo ápice, considero a dramatização de meus poemas em 2009, no projeto Poeta em Cena, que ocorreu na Casa das Rosas.
No meio desse trajeto, aconteceram outros felizes encontros como publicação em revistas literárias (Germina, por exemplo), parcerias musicais, publicação em livros didáticos, o grato convite para escrever no site Escritoras Suicidas, e posterior antologia (Dedo de Moça). “Trair e coçar, é só começar”, de fato! A partir do momento em que traí o Direito e o abandonei, não houve um instante sequer de pausa ou paz, porque poesia é um constante estado de alerta e de transbordamento.


BAP3: Como você definiria sua poesia? Se preferir, responda com um poema.

VT: Deixo para os que entendem do assunto essa definição, pois realmente não sei “rotular” o estilo (ou falta de). Sou apaixonada pela palavra e suas múltiplas facetas, amo brincar com jogos de sonoridade, neologismos, já fiz muito uso de estrangeirismos, mas não sei definir esse tipo de escrita (que, muitas vezes, fica mais explícita no papel, do que ao ser declamada). Há um poema que foi publicado em 2015 no livro didático Vozes do Mundo, Ed. Saraiva, do terceiro ano do Ensino Médio, em que falo dessa liberdade de escrita, de voos cegos , que transcrevo abaixo. Detalhe: o voo é tão às cegas, que não sei responder às questões formuladas no livro (risos envergonhados)

livre para voar

quanto mais penso
mais propensa fico
a cometer lapsos
então disperso
dispenso o caso pensado
preencho o poema
com passos errados
traçados em labirinto
sobre linha tirolesa
um porre de letras bêbadas
invadindo o espaço
rindo alto
do abismo
ao salto

VT

Este outro, abaixo, toca mais no lado do gosto pessoal, pois considero que minha escrita não é unanimidade (como nada neste mundo é, graças aos céus ou infernos) em termos de aceitação pela grande massa:

mal ditos 

exercito a língua
excito o verso
exorcizo a rima
- práticas nem
sempre exatas
meus poemas têm
espí
rito
de poucos –

VT

BAP4: “Poetas não leem poetas.” Esta afirmação, para você, é verdadeira?

VT: Eu não me reconheço, enquanto poeta, sem que a leitura (e até escrita, pois muitas vezes sou instigada a cometer “diálogos”) fosse outra que não a de meus pares. E, como pares, me refiro aos autores que estão no mesmo barco, alguns à deriva, outros no rumo, nas águas mansas ou turbulentas da poesia. A maioria dos livros de poemas de minha estante são de poetas contemporâneos , mas de uma contemporaneidade e atuação semelhantes à minha. Quase todos conhecidos através dos blogs e redes sociais. Sinto o maior prazer quando posso comparecer a lançamentos de livros e me alegro com suas conquistas, como se fosse comigo. E não deixa de ser, pois a poesia obtendo o mínimo destaque, é motivo de satisfação pessoal, por vê-la valorizada.

BAP5: Você passou por momentos muito delicados de saúde. Esta experiência deixou rastros conscientes na sua poesia? Quer trazer um poema que aborde esta temática?

VT: Em 2013 descobri um câncer de mama, passei por cirurgia, quimioterapia, radioterapia e atualmente me encontro em tratamento (hormonioterapia), mas apenas para diminuir as chances de recidiva. Tive sorte de detectar a neoplasia logo no início, mas é sempre um susto e , a princípio, perdi o chão, mas logo me apoiei no que considero um grande trunfo nessas ocasiões: o bom humor. Ri de minhas “zicas”, escrevi ironizando várias situações e isso me manteve forte no decorrer do tratamento, que é extremamente invasivo. Não creio que exista um rastro ou que o câncer tenha sido um marco na minha escrita, abordei o assunto, mas não senti que houve esse tipo de “sequela”. Passeando por meu blog no período de outubro de 2013 em diante, poucos foram os poemas que encontrei que remetiam ao fato. Pessoalmente sim, aconteceu uma reviravolta interior, diria até que um renascimento, pois passei a valorizar mais a vida e me certifiquei que não é só com o vizinho que o mal acontece. Sou mortal, veja só, jurava que não! Também passei a usar de minha experiência para auxiliar quem está passando pelo mesmo problema, seja orientando, doando lenços, ensinando a “pentear” os novos cabelos de pano, com lindas amarrações e o que mais estiver ao meu alcance.
 

O poema a seguir relata uma fase em que eu fazia diversos exames de imagens e de muitos medicamentos:

posologia

a poesia
precisa
de pausa
em drágeas
a loucura
procura
uma paz
mais líquida
tem dias
que sou
- subcutânea -
e dias
de pura
ira
intrave[ne]nosa
rasgo
a rima


VT

BAP6: Existe uma tendência a criticar certos temas na poesia contemporânea (amor, céu, estrelas, lua, borboletas, etc.) como sendo um clichê. Como você vê isso?

VT: Vejo, então, que sou clichê, segundo a crítica. Falo de amor, quase que de uma forma “monotemática”. Meu livro “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP” aborda os amores mal resolvidos, platônicos, proibidos, enfim, amores que por algum motivo, não habitam o sentimento em si. Falo muito de flor, das nuances do céu, tenho poemas em calendário lunar, poemas onde “eustrela / youniverso” reinam e as borboletas do estômago são as coisinhas mais lindas!
Que venham as críticas, porque enquanto a poesia acontecer como manifestação do “olhar”, absorção celular, encantamento, estranheza, incômodo ou qualquer causa que gere o efeito poema, irei abordar o tema e espero que outros autores também sigam a sua tendência.


Citando o Poeta:

"Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras.
Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto.
Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia.
Celebrar moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo.
Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa.
Poesia não presta para demonstrar nada.
Ela só presta para dar néctar." 


Manoel de Barros em entrevista a Douglas Diegues.
— Silêncios, nadas e borboletas. Uma entrevista de Manoel de Barros a Douglas Diegues. Prólogo de Wilson Bueno. Edição de Walther Castelli Júnior, Campinas, SP; 1997)

BAP7: Na sua opinião, o que falta para a leitura de livros de poesia ficar mais presente nas escolas?

VT: Em 2005 e 2006 participei do Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves-RS, especialmente no projeto do autor em sala de aula e acredito que se tal ideia fosse levada às escolas em geral, haveria mais interesse na leitura dos livros de poemas. Apresentar autores que falam a mesma língua da juventude também aproxima o aluno desse tipo de leitura que muitas vezes pode parecer maçante pela forma que o tema é abordado. A publicação em livros didáticos, de autores da atualidade é um fator relativamente novo, lembro que só li autores mortos em meus tempos de escola. Creio que essa mentalidade está mudando e que essa mudança só agrega benefícios tanto para quem escreve, quanto para quem lê.

BAP8: Como surgiu o livro „O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”? Fale um pouco do projeto à publicação.

VT: Como tudo que faço nesta vida, o livro surgiu sem muito planejamento, aliás, foi no atropelo que tudo foi acontecendo porque tive problemas de saúde na família, depois me submeti a uma cirurgia e não pude me dedicar ao livro como gostaria.
Os meus queridos editores Tonho França e Wilson Gorj há muito que tinham intenção de me publicar, mas eu tinha um contrato com outra editora desde 2012, de um livro intitulado Sol a Cio que (desconheço o motivo) não foi publicado. Graças à insistência e paciência de Tonho França, acabei aceitando a oferta e passei a selecionar poemas nessa linha dos (des)amores, assim que decidimos o título. A Penalux foi uma mãe para mim, desembaraçando todos os meus nós e carregando no colo esse projeto. Como eu vivia no hospital acompanhando sogro e sogra adoentados, a seleção dos poemas ficou a cargo da editora, só palpitei nas cores da capa (linda) criada pela Patricia Paulozi, mas devo a eles a realização desse sonho. O primeiro livro, aos 54 anos, é mais que um filho, já nasceu sendo um neto mais que amado. O livro tem prefácio de Múcio Góes e orelha por Sidnei Olívio, poetas queridos e admirados, dos quais sou tiete. Pense em uma felicidade!




__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli


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